Imagine receber uma mensagem do seu advogado informando que você finalmente ganhou uma ação na Justiça. O criminoso sabe seu nome, conhece o número do processo, apresenta documentos verdadeiros e, em alguns casos, consegue até reproduzir a voz do profissional em quem você confia. Tudo parece legítimo. Mas, por trás da notícia tão esperada, pode existir um golpe preparado para roubar seu dinheiro e até obter acesso às suas contas bancárias.
Essa é uma das estratégias utilizadas por criminosos que se passam por advogados e integrantes de escritórios de advocacia para enganar pessoas que possuem processos judiciais em andamento. A fraude, conhecida como golpe do falso advogado, tem se tornado mais sofisticada com o uso de informações disponíveis na internet, dados pessoais obtidos ilegalmente e ferramentas de inteligência artificial.
A advogada Mariana Tellis alerta que os criminosos não se limitam mais a enviar mensagens solicitando transferências bancárias. Em algumas abordagens, eles utilizam documentos reais, áudios que imitam a voz de profissionais e até simulam audiências virtuais para convencer as vítimas de que estão tratando de um procedimento legítimo da Justiça.
O golpe costuma começar com uma notícia que qualquer pessoa que aguarda há anos por uma decisão judicial gostaria de receber: “Parabéns, você ganhou sua causa!”
A partir daí, os criminosos tentam transformar a expectativa de receber um dinheiro em uma oportunidade para aplicar a fraude.
Uma das principais armas dessas quadrilhas é o acesso a informações de processos judiciais. No Brasil, a publicidade dos atos processuais permite que diversos dados sejam consultados nos sistemas dos tribunais, ressalvadas as restrições legais, como nos casos que tramitam sob segredo de justiça.
Em São Paulo, plataformas como o e-SAJ e o eproc disponibilizam informações processuais conforme as regras de acesso aplicáveis a cada documento. Isso permite que golpistas obtenham dados como nomes das partes, identificação dos advogados, números dos processos e informações sobre valores discutidos nas ações.
O problema se agrava quando essas informações são cruzadas com dados pessoais provenientes de vazamentos ou acessos ilegais a cadastros. Dessa forma, os criminosos podem conseguir telefones e outros meios de contato das pessoas envolvidas nas ações judiciais.
Com tudo isso em mãos, a abordagem ganha uma aparência de credibilidade. O falso advogado entra em contato pelo WhatsApp, apresenta informações verdadeiras sobre o processo e, muitas vezes, encaminha documentos retirados dos próprios sistemas da Justiça.
Para quem recebe a mensagem, fica difícil imaginar que alguém de fora do escritório tenha acesso a tantos detalhes. É justamente essa sensação de segurança que os criminosos procuram explorar.
A inteligência artificial tornou o golpe ainda mais preocupante. Segundo o alerta da advogada Mariana Tellis, ferramentas tecnológicas podem ser utilizadas para reproduzir a voz de um profissional a partir de gravações disponíveis em vídeos, redes sociais ou outras publicações.
Assim, a vítima pode receber um áudio com uma voz muito semelhante à do advogado que acompanha seu processo, orientando sobre supostos procedimentos necessários para liberar o dinheiro.
Em outras situações, os fraudadores simulam audiências ou atendimentos virtuais. Durante a chamada de vídeo, solicitam que a pessoa olhe para a câmera, movimente o rosto ou realize procedimentos apresentados como etapas de confirmação de identidade.
A preocupação, nesse caso, é que imagens e dados biométricos sejam coletados e utilizados em outras tentativas de fraude. Embora uma gravação facial, isoladamente, não garanta acesso a uma conta bancária, a exposição desses dados pode ampliar os riscos para a vítima.
Outra estratégia frequente envolve a cobrança de valores para a suposta liberação de indenizações, alvarás ou quantias obtidas em processos judiciais.
Os criminosos afirmam que existe uma taxa pendente, uma custa processual ou um imposto que precisa ser pago imediatamente. Para pressionar a vítima, dizem que o dinheiro só será liberado depois da transferência ou que o prazo para resolver a situação está terminando.
É nesse momento que muitas pessoas acabam realizando pagamentos por Pix, boletos falsos ou depósitos em contas indicadas pelos golpistas.
Mariana Tellis reforça que o principal cuidado é não confiar em uma mensagem apenas porque ela contém informações verdadeiras sobre o processo. Documentos autênticos,
nomes corretos e até uma voz familiar não são garantias de que o contato seja legítimo.
Ao receber uma comunicação inesperada sobre uma vitória judicial, liberação de dinheiro, pagamento de taxas ou realização de audiência, a orientação é interromper a conversa e
procurar diretamente o advogado responsável, utilizando um número de telefone já conhecido e confirmado anteriormente.
Também é importante desconfiar de solicitações acompanhadas de pressão para pagamento imediato. Embora existam prazos urgentes na Justiça, qualquer cobrança ou providência inesperada deve ser confirmada com o profissional responsável antes de ser realizada.
Custas judiciais e outros pagamentos legítimos seguem procedimentos específicos. Por isso, a vítima deve verificar a natureza da cobrança, a autenticidade da guia e a identificação do beneficiário, sem transferir valores para contas desconhecidas apenas com base em mensagens recebidas pelo celular.
Se houver suspeita de golpe, a recomendação é preservar as conversas, os números utilizados, os comprovantes e os documentos encaminhados pelos criminosos. Caso algum pagamento já tenha sido realizado, a vítima deve procurar imediatamente a instituição financeira, comunicar a fraude e registrar um boletim de ocorrência.
O alerta é especialmente importante para pessoas que aguardam o resultado de ações trabalhistas, previdenciárias, indenizatórias ou de qualquer outro processo que envolva o recebimento de valores.
A tecnologia pode mudar a forma como os criminosos agem, mas a armadilha continua explorando sentimentos bastante humanos: a confiança no próprio advogado, a esperança de receber um dinheiro esperado e o medo de perder uma oportunidade.
Por isso, a regra mais importante é simples: recebeu uma notícia boa demais ou uma cobrança inesperada em nome da Justiça? Antes de pagar, clicar em links ou fornecer qualquer informação pessoal, confirme diretamente com seu advogado. Alguns minutos de verificação podem evitar um prejuízo de milhares de reais.




