O cineasta limeirense Pietro Krauss foi detido por cerca de três horas ao tentar entrar na Venezuela para gravar um documentário sobre os recentes acontecimentos no país. O episódio ocorreu na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, após sucessivas tentativas frustradas de ingresso oficial.
Em relato exclusivo ao Rápido no Ar, Pietro contou que a ideia do documentário surgiu logo após o ataque ocorrido no dia 3 de janeiro.
“No dia 3 teve o ataque. Eu virei pro meu sócio, o Pedro, e a gente decidiu: ‘cara, vamos pra lá, dá pra fazer um material bacana, um documentário. Temos que ir pra lá para registrar os acontecimentos’”, relatou.
Segundo o cineasta, ele e o sócio Pedro Paracampos compraram passagens, mas a fronteira do Brasil foi fechada, o que obrigou a dupla a entrar pela Colômbia. Eles chegaram ao país no dia 8 de janeiro e, no mesmo dia, já tentaram acessar a Venezuela.
“Chegamos aqui na Colômbia dia 8 de janeiro e no próprio dia 8 já fomos pra fronteira. Tentamos entrar, mas não conseguimos. Disseram que precisava de uma carta convite de um morador venezuelano.”
A carta foi obtida apenas no dia 11, quando os dois retornaram à fronteira e aguardaram cerca de cinco horas por uma resposta das autoridades.
“A gente ficou umas cinco horas esperando, e o cara negou nossa entrada na Venezuela no dia 11.”
Tentativa alternativa e abordagem policial
No dia 12, com a ajuda de amigos venezuelanos, os cineastas decidiram tentar a entrada por uma rota alternativa, conhecida por ter fiscalização menos rígida.
“Eles falaram pra gente que tinha uma ruazinha ali do lado, onde a burocracia era menor. Disseram que a gente tinha muita cara de gringo, pra tirar a barba, comprar roupa mais neutra e tentar entrar no dia seguinte.”
Pietro contou que a tentativa foi feita utilizando mototáxi, justamente por haver menos fiscalização em relação a veículos maiores.
“A gente tirou a barba, comprou roupa, comprou óculos e tentou entrar de mototáxi, porque moto tem burocracia mais leve. Não tem porta-malas, por exemplo. Nos carros eles abrem tudo.”
O plano era que Pietro entrasse primeiro, seguido por Pedro logo atrás. No entanto, ao chegar ao posto de fiscalização, ele foi abordado.
“Quando eu cheguei lá, tinha um cachorro farejador. O policial pediu meu passaporte, chamou o supervisor, e era o mesmo cara que tinha negado nossa entrada no dia anterior.”
Voz de prisão e detenção
Segundo o relato, o supervisor ficou extremamente alterado ao reconhecê-lo.
“O cara ficou extremamente puto e me deu voz de prisão na hora, dizendo que eu estava tentando entrar ilegalmente na Venezuela.”
Pietro permaneceu detido por cerca de uma hora, enquanto Pedro, ainda em território colombiano, estranhou a falta de comunicação e decidiu não seguir com a travessia.
“O Pedro achou estranho eu não ter mandado mensagem e por isso ele não entrou. Se ele tivesse entrado, a gente estaria preso lá até agora. O cara deixou muito claro: ‘se o seu amigo tentar entrar, a situação vai ficar muito feia’.”
Celular revistado e proibição de entrada
Durante a detenção, Pietro tentou explicar que havia sido orientado por um dos próprios guardas a tentar entrar por outro ponto da fronteira.
“Eu falei que estava entrando ali pela fronteira de San Antonio porque um dos guardas tinha comentado que a gente podia tentar entrar por ali no dia seguinte.”
O guarda citado confirmou a versão, mas, mesmo assim, as autoridades tomaram novas providências.
“Ele fez um monte de papel, tirou foto minha e do Pedro e espalhou pelas imigrações como pessoas que não podem entrar na Venezuela.”
Pietro relatou ainda que teve o celular revistado e alguns dados apagados.
“Ele pegou meu telefone, apagou algumas coisas, depois devolveu.”
Retorno forçado à Colômbia
Após o episódio, o cineasta foi obrigado a retornar à Colômbia a pé, sendo auxiliado por um morador local até reencontrar o sócio.
“Ele me fez voltar pra Colômbia a pé. Um cara passou e me levou de volta até onde o Pedro estava.”
Segundo Pietro, a decisão de Pedro de não atravessar a fronteira foi fundamental.
“Se ele tivesse passado, a gente já estaria preso lá até agora.”
Experiência internacional
Morando atualmente em São Paulo, o cineasta limeirense já realizou trabalhos documentais em outros países da América do Sul, incluindo a Argentina, e pretendia dar continuidade ao projeto registrando momentos decisivos vividos pela Venezuela.




