Há exatos 40 anos, a Inter de Limeira fazia história. A vitória diante do Palmeiras por 2 a 1, em pleno Morumbi, garantia o título paulista ao Leão. Era o primeiro time do interior paulista a conseguir esse feito.
O Paulistão começa com a Inter tendo em seu elenco a base de 1985. Jogadores como o atacante João Luis, que passou a ser lateral-direito, “invenção” do professor José Carlos Fescina, já que havia chegado naquele ano para o ataque, não menos que o craque da Seleção Brasileira de 1982, Éder Aleixo.
Antes da estreia, a morte do zagueiro Zezinho Figueiroa em um treino no Major Levy abalou os jogadores. Por outro lado, uniu o elenco, que queria homenagear o defensor.
No primeiro turno a Inter faz uma boa campanha, em 6º lugar, à frente de mais 14 clubes. O Santos foi o campeão deste turno e já garantido na semifinal. Lusa, Palmeiras, Juventus e Corinthians os que ficaram à frente do Leão. O São Paulo, que cedeu jogadores para a Seleção Brasileira e Dario Pereira para a Uruguaia, ficou só em 7º na classificação. Era o cartão de visita da Veterana.
No 2º turno, os comandados de Pepe foram “triturando” os que vinham pela frente. Uma campanha espetacular. Foi campeã do returno. Em 19 jogos, fez 28 pontos, com 11 vitórias, uma vantagem de quatro pontos sobre o Palmeiras, o 2º colocado. De cartão de visita à realidade.
Por ser campeão do returno, a Inter também já tinha carimbado a classificação para a semifinal.
A vaga dos outros dois semifinalistas se dava pela classificação geral. Palmeiras (47) e Corinthians (46) garantidos também. Se a Inter não fosse a campeã do returno, entraria na semi pela classificação geral, já que somou 49 pontos. Diferente disso, o Santos, foi campeão do 1º turno e “lanterna” no returno, somando apenas 39 pontos no geral, ficando atrás de quatro clubes.
A Inter de quebra levou a “Taça dos Invictos” ao bater o Paulista, em Jundiaí, por 3 a 2, com um gol de Tato aos 44 minutos do 2º tempo, conseguindo seu 16º jogo sem perder, tirando do Santos, que havia conquistado 15 partidas em 1984.
E ainda venceria o Guarani, no Limeirão, por 1 a 0, fechando com 17 jogos. Perdeu sua invencibilidade na derrota para o Timão na rodada seguinte.
Começam as semifinais e a Inter vai até à Vila Famosa. Bate o Santos por 2 x 0 (Kita e Gilberto Costa). No jogo da volta, Limeirão com 27 mil pessoas. Vitória leonina por 2 a 1, gols de João Batista e Kita, com Zé Sérgio descontando para o Peixe. Estava “carimbada” a vaga pra final inédita no Paulistão.
No outro confronto, o Palmeiras eliminou o Corinthians. Com uma derrota de 1 a 0 e depois uma vitória também por 1 a 0, fazendo 2 a 0 na prorrogação. Era o Verdão em busca de um título Paulista que perseguia desde 1976, quando venceu o XV de Piracicaba por 1 x 0 (gol de Jorge Mendonça).
Tudo somado à derrota no Brasileiro de 78 para o Guarani. Era a senha. Um título para lavar a alma dos esmeraldinos.
No dia 31 de agosto, domingo ensolarado, Morumbi marcando 16º, com 104 mil pessoas, sendo 100 mil de camisas verde empurrando seu time. De um lado a torcida leonina cheia de esperança. Um jogo morno e o empate em zero no final. Tudo ficou para quarta-feira.
Chegou o dia 3 de setembro, 21h30, com 78 mil pessoas. Os torcedores viram Kita girar sobre Amarildo Constâncio e chutar rasante no canto direito de Martorelli e em seguida, Denis, recuar mal para seu goleiro, e o esperto Tato, entra no meia da “besteira” do lateral, dribla o arqueiro alviverde e empurra para o fundo da rede. Placar 2 x 0.
Na cabine de imprensa, Edmundo Silva, a Voz Metálica, emocionava Limeira. O narrador estava diante de um fato extraordinário, que marcaria para sempre a vida do clube e sua própria carreira. Limeira parou para a grande final.
Palmeiras vai atrás, Éder Aleixo agora contra seu ex-time, cobra todos os escanteios em cima de Silas, até que Amarildo acha a bola e o gol: 2 x 1.
Dulcídio Vanderlei Boschilla pediu a bola para o arqueiro e apitou o fim de jogo. Um tabu de 84 anos se quebrava. Finalmente um time do interior paulista era campeão com todo o merecimento. Na voz de Edmundo Silva: “o Leão é campeão, o Leão é campeão”. O Palmeiras amargaria mais sete anos na fila.
Uma campanha irrepreensível, como diria o saudoso João Ferraz: Insofismável! Em 42 jogos, foram 21 vitórias, 14 empates e 7 derrotas. Marcou 59 gols e sofreu 33. Com saldo de 26 gols. Foram 56 pontos (dois por vitória) num total de 84 possíveis, obtendo 66,6% de aproveitamento.
A Internacional foi considerada a “Dinamarca Caipira”, em alusão à seleção europeia destaque da Copa do Mundo de 1986. Aquela noite de 3 de setembro de 1986 foi de pura emoção.
A Praça Toledo Barros em poucos minutos ficou lotada de torcedores.
Carros desfilavam pelas ruas com bandeiras. Buzinas, hinos, cantos. Quanta festa minha gente. Todos queriam bater no peito e gritar: “É campeão”.
A Inter tinha como presidente – Vitório Marchesin, como vices Richard Drago, Hans Krauss, Jairo Oliveira e Palmyro D’Andrea. Seus diretores eram Trajano D’Andrea, José Aparecido Boni, Roque Delmonde e Ciro Roland. O supervisor era o saudoso Gilberto Menconi (Queijinho).
Onde andam os nossos heróis de 1986?
Silas – reside em Ourinhos, no interior de São Paulo e trabalha na revelação de novos valores para o futebol do Brasil.
João Luis – reside em Cosmópolis e trabalha na empresa RJ, onde capta jovens talentos para o futebol.
Juarez – morreu em um acidente de moto, em maio de 1997. Ele era mecânico e trabalhava numa retífica de motores em Santos.
Bolívar – reside em Santa Cruz do Sul/RS onde curte sua aposentadoria.
Pecos – morreu em um acidente no dia 24 de novembro de 2007, no km 118+600 metros da Rodovia Limeira/Piracicaba. Foi desviar de um cachorro na pista e capotou seu Jeep Cherokee, falecendo no local.
Manguinha – reside em Bragança Paulista e possui quadras para o futebol society.
Gilberto Costa – reside em Santos e também trabalha na empresa RJ, onde busca talentos para o futebol.
João Batista – reside em Ribeirão Preto e após se aposentador do futebol, virou bancário.
Tato – reside em Piracicaba e vende materiais esportivos.
Kita – morreu no dia 3 de outubro de 2015, aos 57 anos, em Passo Fundo (RS). Vinha enfrentando graves problemas de saúde.
Lê – reside em Limeira e é o proprietário da RJ, empresa que cuida da carreira de jogadores e técnicos de futebol.
Pepe – Aos 91 anos, seu José Macia reside em Santos. Em breve terá o seu busto no Limeirão. É o maior técnico da história da Inter.
Os 42 jogos da Inter em 1986:
23/02/1986 – Palmeiras 3 x 1 Internacional
02/03/1986 – Internacional 1 x 1 Ponte Preta
05/03/1986 – Ferroviária 1 x 2 Internacional
09/03/1986 – Internacional 2 x 0 Juventus
12/03/1986 – Internacional 1 x 1 Corinthians
16/03/1986 – Comercial 2 x 2 Internacional
19/03/1986 – Internacional 2 x 0 XV de Jaú
23/03/1986 – Internacional 0 x 0 São Paulo
29/03/1986 – Novorizontino 1 x 0 Internacional
06/04/1986 – Internacional 4 x 0 Paulista
10/04/1986 – Santo André 1 x 1 Internacional
13/04/1986 – Internacional 1 x 0 Mogi Mirim
16/04/1986 – Santos 1 x 0 Internacional
20/04/1986 – Internacional 3 x 1 Portuguesa
27/04/1986 – Internacional 2 x 1 Botafogo
01/05/1986 – Guarani 0 x 0 Internacional
04/05/1986 – América 1 x 1 Internacional
13/05/1986 – Internacional 1 x 2 São Bento
18/05/1986 – XV de Piracicaba 2 x 1 Internacional
25/05/1986 – Internacional 3 x 0 Santos
28/05/1986 – Internacional 1 x 0 Santo André
31/05/1986 – Ponte Preta 1 x 1 Internacional
14/06/1986 – Internacional 1 x 0 Palmeiras
19/06/1986 – Internacional 2 x 0 Ferroviária
28/06/1986 – Internacional 1 x 0 Comercial
02/07/1986 – XV de Jaú 1 x 2 Internacional
06/07/1986 – Mogi Mirim 0 x 0 Internacional
13/07/1986 – Internacional 4 x 1 Novorizontino
16/07/1986 – Portuguesa 1 x 2 Internacional
19/07/1986 – Juventus 0 x 0 Internacional
23/07/1986 – Internacional 5 x 0 XV de Piracicaba
27/07/1986 – São Bento 0 x 0 Internacional
30/07/1986 – Botafogo 1 x 1 Internacional
03/08/1986 – Internacional 0 x 0 América
06/08/1986 – Paulista 2 x 3 Internacional
10/08/1986 – Internacional 1 x 0 Guarani
13/08/1986 – Corinthians 1 x 0 Internacional
17/08/1986 – São Paulo 5 x 1 Internacional
24/08/1986 – Santos 0 x 2 Internacional
28/08/1986 – Internacional 2 x 1 Santos
31/08/1986 – Palmeiras 0 x 0 Internacional
03/09/1986 – Internacional 2 x 1 Palmeiras
Internacional 2 x 1 Palmeiras
Gols – Kita aos 4 e Tato aos 8 minutos do 2º tempo (IN); Amarildo Constâncio aos 29 minutos do 2º tempo (P)
Local – Morumbi
Data – 03/09/1986
Árbitro – Dulcídio Vanderlei Boschilla
Público – 78.564
Renda – Cr$ 2.443.660.000,00
Internacional – Silas; João Luís, Juarez, Bolívar e Pecos; Manguinha, Gilberto Costa e João Batista (Alves); Tato, Kita e Lê (Carlos Silva). Técnico – Pepe.
Palmeiras – Martorelli; Diogo (Ditinho), Amarildo Constâncio, Márcio e Dennis; Lino (Mendonça), Gerson Caçapa e Jorginho, Edmar, Mirandinha e Éder Aleixo. Técnico – Carbone.

